Imunologia da HansenĂase
por Ana Paula Vieira
A hansenĂase Ă© uma doença bacteriana a qual envolve diferentes mecanismos de resposta imunolĂłgica frente Ă exposição ao M. leprae. Apesar de ser um microrganismo de alta infectividade e baixa patogenicidade, a resposta imune do hospedeiro frente Ă infecção Ă© decisiva no desenvolvimento ou nĂŁo da doença, bem como crucial para determinar as manifestaçÔes clĂnicas da hansenĂase. A variedade de apresentaçÔes clĂnicas na doença reflete diferentes graus de resposta imune, em que as respostas inata e adaptativa se sobrepĂ”em em diversos eventos durante o curso da doença. Os episĂłdios reacionais sĂŁo desencadeados pela sĂșbita intensificação da resposta imune em pacientes imunologicamente instĂĄveis, causando incapacidades fĂsicas permanentes associadas Ă hansenĂase.
Imunidade inata na hansenĂase
A resposta imune inata Ă© responsĂĄvel por proporcionar a primeira linha de defesa no organismo. Embora nĂŁo seja especĂfica, ela permite uma resposta ativa contra o patĂłgeno atĂ© que uma resposta mais especializada se desenvolva e auxilie no combate Ă infecção. No contexto da hansenĂase, apesar de pouco elucidado, sabe-se que uma potente atuação dos componentes da resposta inata pode ser suficiente para proporcionar, em alguns indivĂduos, resistĂȘncia ao desenvolvimento da doença.
MacrĂłfagos e cĂ©lulas dendrĂticas no reconhecimento do M. leprae
Quando entra no organismo, geralmente pelas vias aĂ©reas, o M. leprae Ă© reconhecido pelas cĂ©lulas inatas. O reconhecimento inicial de antĂgenos oriundos da bactĂ©ria Ă© realizado pelos macrĂłfagos e pelas cĂ©lulas dendrĂticas (âDendritic Cellsâ - DCs). Essas cĂ©lulas se ativam atravĂ©s de receptores presentes em sua superfĂcie que reconhecem diferentes componentes do M. leprae. Uma vez ativados, macrĂłfagos e DCs estĂŁo aptos a ativar linfĂłcitos T e B atravĂ©s da apresentação do antĂgeno microbiano.
Os receptores de reconhecimento padrĂŁo (PRRs- do inglĂȘs: âpattern recognition receptorsâ) sĂŁo os âsensoresâ presentes nos macrĂłfagos e DCs que reconhecem os antĂgenos micobacterianos e estimulam a ativação dessas cĂ©lulas. Dentre os PRRs, os receptores do tipo Toll (TLR â do inglĂȘs: âToll-like receptorsâ) sĂŁo fundamentais para o reconhecimento do M. leprae. A ligação dos antĂgenos com os TLRs induz o desenvolvimento de uma cascata de eventos intracelulares culminando na formação de citocinas prĂł-inflamatĂłrias, quimiocinas e molĂ©culas que auxiliam a ativação dos linfĂłcitos.
Os heterodĂmeros TLR2-TLR1 e os homodĂmeros TLR2 e TLR4 apresentam maior relação com a molĂ©stia e sĂŁo responsĂĄveis pela detecção de lipoproteĂnas da micobactĂ©ria. Esses receptores de reconhecimento inato estĂŁo envolvidos com a efetividade de defesa do hospedeiro contra o M. leprae. PadrĂ”es diferentes de expressĂŁo de TLRs sĂŁo observados nos espectros clĂnicos da doença, de modo que lesĂ”es de pacientes paucibacilares apresentam maior expressĂŁo de TLR2 e TLR1 do que lesĂ”es de pacientes multibacilares. Sob a perspectiva genĂ©tica, polimorfismos nos genes codificadores de TLR1 em mulheres parecem estar envolvidos com a proteção contra o desenvolvimento da forma virchowiana.
Outra classe de PRRs que comumente Ă© relacionada Ă modulação imunolĂłgica na hansenĂase Ă© o receptor intracelular NOD2 (do inglĂȘs: âNOD-like receptorâ) responsĂĄvel por desencadear a montagem de um complexo de proteĂnas conhecido como inflamossoma. Esse complexo Ă© responsĂĄvel por controlar a sĂntese de citocinas pro-inflamatĂłrias, como a IL-1ÎČ. Polimorfismos apresentados em NOD2 estĂŁo associados Ă maior susceptibilidade ao desenvolvimento da hansenĂase.
Existem muitas outras molĂ©culas associadas ao reconhecimento do M. leprae pelos macrĂłfagos e DCs. Entre elas estĂĄ o receptor scavenger (CD163), molĂ©culas transmembranas envolvidas na sinalização intracelular quando ativadas por lipoproteĂnas estruturais aumentando a indução da fagocitose dos bacilos e lipĂdios endĂłgenos. Este fato faz com que a presença desse receptor seja relacionada com o desenvolvimento de cĂ©lulas espumosas observadas em pacientes virchowianos.
Outra proteĂna que parece ter relação com as diferentes formas de manifestação da hansenĂase Ă© o receptor de vitamina D (VDR). A estimulação de TLR2/1 na presença de IL-15 aumenta a expressĂŁo desse receptor em pacientes tuberculoides, o que intensifica a capacidade dos macrĂłfagos desses indivĂduos de produzir defensinas e catalecidinas que sĂŁo peptĂdeos antimicrobianos.
Na hansenĂase, os macrĂłfagos sĂŁo uma das primeiras cĂ©lulas a entrar em contato com a bactĂ©ria. Frente Ă exposição ao M. leprae, constituem elementos-chave exercendo função fagocĂtica, atividade antimicrobicida, e atuando tambĂ©m como cĂ©lula apresentadora de antĂgenos (âAntigen Presenting Cellsâ - APCs) aos linfĂłcitos. Diferentes subpopulaçÔes de macrĂłfagos podem ser desenvolvidas apĂłs o reconhecimento do M. leprae, que direcionam de forma distinta a resposta imunolĂłgica. Os macrĂłfagos M1 apresentam ação inflamatĂłria e produzem altos nĂveis de citocinas como IL-1ÎČ, TNFα, IL- 6 e IL-12. AlĂ©m disso, apresentam uma potente atividade microbicida pela ação da enzima iNOS e induzem a diferenciação de linfĂłcitos em Th1 os quais estimulam ainda mais esses macrĂłfagos. Por sua vez, os macrĂłfagos M2 atuam no reparo tecidual e resolução da inflamação, sĂŁo estimulados por citocinas como IL-4, IL-10 e TGFÎČ e induzem a resposta para o perfil Th2.
Na forma polar tuberculoide hĂĄ granulomas epitelioides com predomĂnio de M1, correspondendo com o padrĂŁo de resposta tipo Th1, caracterĂstico dessa forma clĂnica. Em contrapartida, no polo virchowiano observam-se hansenomas com predomĂnio de cĂ©lulas M2, condizendo com o perfil Th2 e anergia encontrados nesse tipo de manifestação. Nesses casos, os macrĂłfagos com atividade microbicida amenizada fagocitam o M. leprae porĂ©m nĂŁo sĂŁo aptos a destruĂ-los, gerando acĂșmulo micobacteriano em seu citoplasma.
As DCs constituem as principais cĂ©lulas apresentadoras de antĂgenos (APCs) do sistema imune e sĂŁo sentinelas naturais, pois apresentam alto potencial de acesso aos patĂłgenos, uma vez que estĂŁo localizadas em regiĂ”es estratĂ©gicas do organismo, como pele, superfĂcies mucosas e sangue. AtravĂ©s das molĂ©culas do complexo de histocompatibilidade maior (MHC) tipo I e II, essas cĂ©lulas apresentam antĂgenos microbianos aos linfĂłcitos virgens e iniciam o desenvolvimento da imunidade adaptativa modulando a resposta em Th1 ou Th2.
Quando residentes na epiderme e derme, as DCs sĂŁo chamadas de cĂ©lulas de Langerhans. Essas cĂ©lulas possuem molĂ©culas da famĂlia CD1 e vĂȘm sendo associadas Ă mediação da apresentação de antĂgenos lipĂdicos aos linfĂłctos T, junto com as molĂ©culas do MHC I e II envolvidas na apresentação de antĂgenos proteicos. Na hansenĂase tuberculoide hĂĄ uma maior frequĂȘncia de cĂ©lulas de Langerhans em comparação com a virchowiana, de forma que a presença dessas cĂ©lulas Ă© associada a um efetivo processamento e apresentação de antĂgenos micobacterianos. Existem evidĂȘncias de que o glicolipĂdeo PGL-1 da estrutura do M. leprae inibe a maturação e ativação da DC, proporcionando a sobrevivĂȘncia do bacilo e a diminuição da capacidade de induzir a ativação dos linfĂłcitos T em pacientes multibacilares.
Relação das células de Schwann com o M. leprae
Apesar de não corresponderem ao arsenal de células do sistema imune, vem sendo descrito que as células de Schwann, dependendo do microambiente, podem apresentar comportamento de APCs.
Alguns estudos sugerem que, uma vez infectadas pelo M. leprae e submetidas a altos nĂveis de IFNÎł, as cĂ©lulas de Schwann podem expressar MHC classe I e II, apresentar antĂgenos do bacilo aos linfĂłcitos T e desencadear uma resposta efetora local. A patogĂȘnese do dano neural na hansenĂase pode estar relacionada com a presença de citocinas inflamatĂłrias no local induzindo a apoptose das cĂ©lulas de Schwann devido a sua interação com o M. leprae.
Sistema complemento na hansenĂase
O sistema complemento consiste em um conjunto de proteĂnas solĂșveis presentes no sangue. Ă um dos principais mecanismos efetores da resposta imune humoral e inata, participando na formação de poros na superfĂcie celular, principalmente em bactĂ©rias, na opsonização de patĂłgenos e imunocomplexos, no recrutamento de leucĂłcitos e na resposta inflamatĂłria.
Com relação Ă interação do sistema complemento com o M. leprae, sabe-se que o PGL-1 (glicolipĂdeo fenĂłlico-1) bacteriano Ă© capaz de ativar o sistema complemento. Danos neurais observados na hansenĂase sĂŁo relacionados Ă deposição do complexo de ataque Ă membrana (âMembrane Attack Complexâ - MAC) nos nervos. O complexo MAC Ă© o produto final do sistema complemento, responsĂĄvel pela formação de poros na membrana das cĂ©lulas infectadas, e consequentemente pela indução Ă morte celular.
Imunidade adaptativa na hansenĂase
A imunidade adaptativa, mediada por diferentes subtipos de linfĂłcitos T, Ă© peça chave para o combate Ă infecção pelo M. leprae. Por outro lado, a resposta mediada por anticorpos nĂŁo se demonstra eficiente para conter a multiplicação bacilar. A polarização de uma resposta imune especĂfica Ă© um importante elemento na patogĂȘnese da hansenĂase e na determinação de suas formas clĂnicas.
Uma vez reconhecidos e processados, os antĂgenos do M. leprae sĂŁo apresentados pelas APCs para os linfĂłcitos T. Quando o antĂgeno Ă© apresentado pelo MHC classe II, hĂĄ reconhecimento pelos linfĂłcitos TCD4 que, por sua vez podem se diferenciar em T helper 1 (Th1) ou T helper 2 (Th2), os quais geram perfis opostos de resposta. O perfil de citocinas secretadas pelas DCs Ă© um dos fatores que influenciam no padrĂŁo de resposta.
Nesse contexto, a produção de IL-12 pelas DCs induz a diferenciação de linfĂłcitos virgens em Th1 responsĂĄveis pelo desenvolvimento da resposta mediada por cĂ©lulas, principalmente na ativação de macrĂłfagos que atuarĂŁo contra o patĂłgeno. JĂĄ Ă© bem estabelecido que a hansenĂase tuberculoide Ă© caracterizada pela forte resposta celular contra o M. leprae, mediada por Th1.
Nesse tipo de resposta hĂĄ intensa produção das citocinas IFNÎł, que atua na ativação de APCs aumentando sua expressĂŁo de MHC II, favorecendo a apresentação antigĂȘnica; IL-2, que estimula a proliferação e sobrevivĂȘncia dos linfĂłcitos antĂgeno-especĂficos e aumenta a produção de IFNÎł; linfotoxina α (LTα), que estimula o desenvolvimento e manutenção do granuloma; e TNFα, que aumenta o potencial microbicida dos macrĂłfagos e atua na formação do granuloma agindo na contenção da infecção. Devido a esse padrĂŁo de resposta M. leprae-especĂfica, apresentada pela eficiente contenção da proliferação bacilar, o polo tuberculoide Ă© definido como o perfil de resistĂȘncia ao bacilo.
Por outro lado, quando hĂĄ ausĂȘncia de IL-12 e presença de IL-4 ocorre diferenciação dos linfĂłcitos em Th2, responsĂĄveis pelo desenvolvimento de uma resposta humoral.
O perfil de resposta Th2 Ă© predominante na hansenĂase virchowiana, que apresenta altos nĂveis de IL-4, IL-5, IL-10 e IL-13. Em conjunto, essas citocinas vĂŁo estimular a ativação de linfĂłcitos B que produzirĂŁo altos nĂveis de anticorpos IgM e IgG contra PGL-1 e outras proteĂnas do bacilo, como a lipoarabinomanana (LAM). A produção de anticorpos por si sĂł nĂŁo Ă© eficaz para conter a proliferação bacilar. Pacientes virchowianos nĂŁo conseguem gerar uma resposta imune adequada para conter o M. leprae pois apresentam baixa resposta linfoproliferativa, caracterizando um estado anĂ©rgico frente Ă infecção.
As formas instĂĄveis da hansenĂase apresentam uma vasta variação de resposta imunolĂłgica. No entanto, na evolução da forma dimorfa-tuberculoide (DT) para dimorfa-virchowiana (DV), observa-se uma progressiva tendĂȘncia Ă diminuição da resposta celular Th1 associada a um aumento da carga bacilar e da resposta humoral Th2.
AlĂ©m da dicotomia Th1/Th2, outros subtipos de linfĂłcitos sĂŁo relacionados Ă modulação imunolĂłgica na hansenĂase. Os linfĂłcitos T reguladores (Tregs) secretam IL-10 e expressam molĂ©culas supressoras como o CTLA-4 (do inglĂȘs: âcytotoxic T-lymphocyte-associated protein-4â). SĂŁo supressores antĂgeno-especĂficos mais presentes na circulação e na lesĂŁo de pele de pacientes virchowianos, sendo relacionados ao quadro de insuficiĂȘncia de resposta celular que esse espectro apresenta.
Atualmente propĂ”e-se uma relação entre as Tregs e os linfĂłcitos Th17 na hansenĂase. Esses dois subtipos celulares apresentam papĂ©is opostos. Enquanto as Tregs regulam a resposta imune, as Th17 sĂŁo responsĂĄveis por desenvolver uma intensa resposta prĂł-inflamatĂłria. Na hansenĂase paucibacilar hĂĄ maior frequĂȘncia dessas cĂ©lulas sendo associadas Ă potencialização da produção de IFNÎł e inibição da produção de IL-10 pelas Tregs.
Os linfĂłcitos TCD8 sĂŁo importantes mediadores da imunidade adaptativa contra microrganismos intracelulares, sendo que reconhecem antĂgenos apresentados pelas APCs via MHC classe I. Dentro do espectro de manifestaçÔes clĂnicas da hansenĂase observa-se padrĂ”es diferentes na proporção de CD4/CD8. No polo virchowiano hĂĄ escassa presença de linfĂłcitos TCD4 e aumento de linfĂłcitos TCD8, formando granulomas mal organizados. Por outro lado, no polo tuberculoide hĂĄ predominĂąncia de linfĂłcitos TCD4 no centro das lesĂ”es e alguns linfĂłcitos TCD8 nas margens, apresentando assim uma formação mais ordenada.
Figura 1. PossĂveis causas para a resposta imune polarizada nas formas tuberculoide vs. virchowiana de acordo com o paradigma de resposta Th1/Th2. Na hansenĂase tuberculoide (TT), os linfĂłcitos T virgens sĂŁo ativados pela apresentação de antĂgenos do M. leprae e pela ação da IL-2 secretada pelas APCs (cĂ©lulas apresentadoras de antĂgenos) polarizando a resposta para o perfil Th1 (IFN-Îł, IL-2, TNFe IL-15), que irĂŁo conter a infecção com a formação de granulomas e estimular a capacidade microbicida dos fagĂłcitos. Na hansenĂase virchowiana (VV) a resposta celular se inicia pela apresentação antigĂȘnica e estimulação dos linfĂłcitos T virgens com IL-4 polarizando para o perfil Th2 (IL-4, IL-10, IL-5), que irĂŁo induzir a ativação de linfĂłcitos B e produção de anticorpos contra as estruturas microbianas. Tregs, que sĂŁo predominantemente supressoras, atuam secretando IL-10, TGFÎČ e ligantes em sua superfĂcie e estĂŁo mais presentes na forma de susceptibilidade ao M. leprae (polo virchowiano). LinfĂłcitos Th17 produtores de IL-17 e IL-22 apresentam perfil inflamatĂłrio e sĂŁo encontrados em maior nĂșmero no polo de resistĂȘncia ao bacilo (tuberculoide).
Figura 2. Espectro clĂnico da hansenĂase. Frente ao contato com o M. leprae o indivĂduo pode apresentar resistĂȘncia natural Ă infecção ou desenvolver a doença. Segundo a classificação de Ridley & Jopling, dependendo dos aspectos clĂnicos, histopatolĂłgicos, imunolĂłgicos e bacteriolĂłgicos, a hansenĂase pode ser dividida em cinco formas clĂnicas: as formas polares (Tuberculoide â TT e Virchowiana â VV) e as interpolares (Dimorfo-tuberculoide - DT, dimorfo-dimorfo â DD e dimorfo-virchowiana â DV).
Imunologia dos episĂłdios reacionais
As respostas imunes celular e humoral na hansenĂase sĂŁo dinĂąmicas, sofrendo alteraçÔes que variam com o tempo e o tratamento, podendo originar os episĂłdios reacionais hansĂȘnicos.
Os episĂłdios reacionais sĂŁo fenĂŽmenos inflamatĂłrios agudos sobrepostos Ă evolução crĂŽnica da hansenĂase, que podem resultar na perda funcional de nervos perifĂ©ricos levando a incapacidades fĂsicas causadas pela doença. Os mecanismos desencadeadores dos episĂłdios reacionais ainda nĂŁo sĂŁo totalmente compreendidos.
A reação tipo 1 (R1) incidente em pacientes dimorfos (borderlines) Ă© caracterizada por manifestaçÔes localizadas e envolve principalmente mecanismos da imunidade mediada por cĂ©lulas, sendo associada Ă exacerbação da resposta Th1 antĂgeno-especĂfica em resposta ao aumento de antĂgenos circulantes do M. leprae, geralmente decorrente do tratamento antimicobacteriano.
O infiltrado inflamatĂłrio Ă© constituĂdo por granulomas com macrĂłfagos do tipo M1 (CD68+CD163-) e intensa produção de iNOS, que Ă© um importante antimicrobicida. MacrĂłfagos mais ativados, com alta expressĂŁo da molĂ©cula coestimuladora essencial para ativação dos linfĂłcitos T, estĂŁo mais presentes na R1 do que na reação tipo 2. HĂĄ predominĂąncia de cĂ©lulas TCD4+ secretoras de IFNÎł e TNFα, consistente com o aumento no nĂșmero de linfĂłcitos T reativos para os antĂgenos de M. leprae, nas lesĂ”es da pele e nervos.
O dano neural Ă© mais comum na R1, sendo um reflexo da resposta Th1 antĂgeno-especĂfica intensificada, que nesses quadros pode atuar sobre as cĂ©lulas de Schwann infectadas pelo M leprae, induzir a apoptose celular e, consequentemente, causar danos neurais severos e muitas vezes irreversĂveis.
A reação do tipo 2 (R2) ou eritema nodoso hansĂȘnico (ENH) ocorre geralmente em pacientes do polo virchowiano ou em dimorfos-virchowianos (DV) em decorrĂȘncia ao aumento da resposta humoral contra antĂgenos do M. leprae, resposta do tipo Th2. Os aspectos clĂnicos sĂŁo resultantes de uma resposta inflamatĂłria aguda sistĂȘmica que envolve qualquer ĂłrgĂŁo ou tecido em que o bacilo ou seus antĂgenos estejam presentes.
Trata-se de uma reação de hipersensibilidade tardia devida a elevadas concentraçÔes de anticorpos contra antĂgenos do M. leprae e formação de imunocomplexos circulantes que, ao atingir espaços teciduais, vasos sanguĂneos e linfĂĄticos resultam na ativação de um intenso processo inflamatĂłrio. Esse processo desencadeia migração de neutrĂłfilos, em resposta Ă secreção de IL-1ÎČ por APCs, para o sĂtio de inflamação e liberação de enzimas responsĂĄveis por lesĂ”es teciduais. Atualmente, a molĂ©cula CD64 presente nos neutrĂłfilos Ă© associada a um pior prognĂłstico e Ă© encontrada em abundĂąncia nos sĂtios de lesĂ”es e na circulação. NeutrĂłfilos que apresentam essa molĂ©cula apresentam suas funçÔes potencializadas.
Nas lesĂ”es de pele presentes no ENH sĂŁo observados poucos macrĂłfagos, tanto com o fenĂłtipo M1 quanto M2, sugerindo que essa reação nĂŁo estĂĄ associada com o recrutamento de macrĂłfagos, como o visto em R1. Contudo, o desenvolvimento do ENH Ă© relacionado a vĂĄrios mecanismos, sendo que nĂveis plasmĂĄticos de IL-6 aumentados sĂŁo encontrados nesse tipo de reação em comparação com R1, propondo a IL-6 como um possĂvel biomarcador desse tipo de reação.
Ainda intensificando o processo inflamatĂłrio, hĂĄ relatos de que linfĂłcitos TCD8 produtores de TNFα estĂŁo presentes em ENH. Outro mecanismo tambĂ©m sugerido, por estar envolvido com a intensa infiltração neutrofĂlica presente nesse tipo de reação, Ă© a maior frequĂȘncia de cĂ©lulas Th17 nas lesĂ”es de pele no ENH. Esse subtipo de linfĂłcito apresenta capacidade de secretar substĂąncia quimiotĂĄticas para os neutrĂłfilos. AlĂ©m disso, apesar de controverso, outro fato atribuĂdo Ă inflamação extensa caracterĂstica do ENL Ă© a presença de uma menor quantidade de cĂ©lulas Tregs circulantes e presentes nas lesĂ”es em comparação com pacientes R1.
Ă difĂcil estabelecer um padrĂŁo de resposta especĂfico para melhor compreender os processos envolvidos nas reaçÔes tipo 1 e tipo 2. Dessa forma, esclarecer os mecanismos imunopatolĂłgicos que atuam na hansenĂase e em seus episĂłdios reacionais Ă© de fundamental importĂąncia nĂŁo sĂł para o controle e tratamento da infecção, como para prevenir as complicaçÔes inflamatĂłrias, principais causadoras das deformidades e incapacidades observadas na hansenĂase.
Figura 3. Imunopatogenia dos episĂłdios reacionais. Na reação tipo 1 ocorre intensificação da resposta imune celular (Th1) provavelmente em resposta a antĂgenos circulantes do M. leprae , desenvolvendo assim inflamação local. JĂĄ na reação tipo 2 ocorre aumento tanto da resposta imune mediada por cĂ©lulas como da mediada por anticorpos, levando Ă formação de imunocomplexos e recrutamento de neutrĂłfilos para as lesĂ”es, culminando assim em uma resposta inflamatĂłria sistĂȘmica.
Leticia Berçam Scultori e
Lucas Herzog
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