Prevenção de incapacidades integrada à rotina dos serviços de saúde

Realidade ou Utopia?

Marcos Túlio Raposo,

Professor Titular. Departamento de Saúde I - Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

Ana Virgínia de Queiroz Caminha,

Professora Assistente. Departamento de Saúde I – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

Caroline Santos Adimarães,

Acadêmica de Fisioterapia – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Jéssica Souza Britto

Acadêmica de Fisioterapia – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

e Lorena dos Santos Duarte.

Acadêmica de Fisioterapia – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia
1º/11/2020

Durante o curso da hanseníase, os nervos periféricos, a pele e os seus anexos são comprometidos (1, 2). O dano neural pode resultar da ação direta do bacilo de Hansen ou decorrer de uma resposta imunológica contra este microrganismo, que resulta em um processo inflamatório no nervo, prejudicando o seu funcionamento normal. Ambos mecanismos comprometem as funções nervosas autonômicas (produção de suor, controle da contração dos vasos sanguíneos, por exemplo), motoras (força dos músculos) e sensitivas (temperatura, tato e dor) das áreas por eles supridas (3-5) e podem gerar incapacidades (6, 7). Algumas pessoas reagem à infecção de forma mais intensa que outras, envolvendo outros órgãos, agravando a condição das incapacidades (2, 3, 8).

A depender do tempo transcorrido, as incapacidades pela hanseníase podem estar presentes no momento do diagnóstico, que podem ser atenuadas ou permanecer estabilizadas com o tratamento específico. Em outra direção, podem piorar ou se tornar irreversíveis se não forem reconhecidas e tratadas em tempo hábil, de modo apropriado (2, 8).

As incapacidades físicas ocorrem com mais frequência em nariz, olhos, mãos e pés, comprometendo a estética e a função. Podem ser mensuradas por meio da avaliação neurológica simplificada (ANS) – um exame clínico detalhada dos nervos e de suas funções – a partir da qual é estabelecido o grau de incapacidade (GI) para olhos, mãos e pés (9), numa gradação assim definida: GI0 (zero) aponta que não há incapacidades decorrentes da hanseníase; GI1 (um) confirma que há diminuição de sensibilidade na córnea ou diminuição de força das pálpebras (sem deformidade aparente), alteração de sensibilidade palmar e/ou plantar, diminuição de força em mãos e/ou pés (sem deficiências visíveis); GI2 (dois) é aplicável a situações de comprometimentos graves, com deficiências visíveis em olhos, mãos e/ou pés causadas pela hanseníase (1).

Devido à complexidade da hanseníase, quando se fala em seu tratamento, há que se compreender que ele não envolve apenas o tratamento medicamentoso, mas um conjunto de medidas muito mais abrangentes, como a prevenção de incapacidades (PI). Esta corresponde a um processo amplo e bem estruturado que compõe a terapêutica da doença, com o objetivo de evitar a ocorrência de danos físicos, emocionais, socioeconômicos (1, 10) e demanda intervenção multiprofissional (2). Tal processo é formado por um conjunto de medidas, aplicáveis nos distintos níveis de atenção, direcionadas não apenas à pessoa afetada pela doença, mas também para o coletivo e seu entorno, com vistas a prevenir deficiências, limitações de atividade e restrições de participação (11), como por exemplo: educação em saúde; diagnóstico precoce, tratamento oportuno e regular com PQT, vigilância de contatos; detecção precoce e manejo terapêutico adequado de quadros reacionais; autocuidados; apoio à manutenção da condição emocional e integração social (1).

Após o acolhimento e admissão do paciente no serviço de saúde, ele deve ter suas necessidades identificadas e receber o suporte da equipe para o enfrentamento da doença. As ações de PI envolvem, pelo menos: o exame neurológico por meio da ANS; avaliação do GI; monitoramento da função neural durante e após a PQT(12); medidas de educação para saúde e de autocuidado; adaptação de instrumento de trabalho e para a vida diária; confecção de órteses, adaptações de calçados; e intervenções de fisioterapia e/ou terapia ocupacional (10).

Ainda que se reconheçam os avanços ocorridos nas últimas décadas quanto à terapêutica da hanseníase, a abordagem integral ainda persiste insuficiente, pois a incorporação de ações de PI, reabilitação, mecanismos de avaliação de funcionalidade e de estigma precisam ser assegurados e disponibilizados a todos os usuários por meio de acesso igualitário com tratamento oportuno (2).

Para um país responsável por 13% do total mundial de casos novos de hanseníase em 2019 (13), as ações de PI ainda não alcançaram o nível de implantação e cumprimento desejados. A realidade dos serviços de saúde é preocupante, pois o Brasil está atualmente imerso em um contexto de dificuldades múltiplas impostas pela pandemia da Covid-19 (14), (15), com uma devastadora política de redução de apoio à ciência (16, 17), subfinanciamento e desmonte crescente do Sistema Único de Saúde – SUS (18-20). Em meio a este cenário comprometedor permanece desafiador que, frente às grandes demandas gerais de usuários e à insuficiência de cobertura da estratégia saúde da família, as ações de PI sejam oferecidas satisfatoriamente e que componham a atenção integral às pessoas afetadas pela hanseníase, como proposto na Estratégia Global para a Hanseníase 2016-2020, alinhada aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (21).

Referências bibliográficas

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes para a vigilância, atenção e eliminação da hanseníase como problema de saúde pública. Brasília. 2016.

  2. Alves ED, Ferreira TL, Ferreira IN. Hanseníase: avanços e desafios. Brasília: NESPROM; 2014. 492 p.

  3. Lockwood DN, Saunderson PR. Nerve damage in leprosy: a continuing challenge to scientists, clinicians and service providers. Int Health. 2012;4(2):77-85.

  4. van Brakel WH, Sihombing B, Djarir H, Beise K, Kusumawardhani L, Yulihane R, et al. Disability in people affected by leprosy: the role of impairment, activity, social participation, stigma and discrimination. Glob Health Action. 2012;5.

  5. Antunes DE, Araujo S, Ferreira GP, Cunha AC, Costa AV, Gonçalves MA, et al. Identification of clinical, epidemiological and laboratory risk factors for leprosy reactions during and after multidrug therapy. Mem Inst Oswaldo Cruz. 2013;108(7):901-8.

  6. Wilder-Smith EP, Van Brakel WH. Nerve damage in leprosy and its management. Nat Clin Pract Neurol. 2008;4(12):656-63.

  7. Kumar A, Girdhar A, Girdhar BK. Risk of developing disability in pre and post-multidrug therapy treatment among multibacillary leprosy: Agra MB Cohort study. BMJ Open. 2012;2(2):e000361.

  8. World Health Organization. WHO Expert Committee on Leprosy. World Health Organ Tech Rep Ser. 2012(968):1-61, 1 p following

  9. Van Brakel WH, Saunderson P, Shetty V, Brandsma JW, Post E, Jellema R, et al. International workshop on neuropathology in leprosy--consensus report. Lepr Rev. 2007;78(4):416-33.

  10. Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Prevenção de Incapacidades. Brasília: Editora MS; 2008.

  11. Pan American Health Organization. Consensus statement on prevention of disability. Cebu: ALM; WHO; WHO; 2006. p. 9.

  12. Raposo MT, Reis MC, Caminha AVQ, Heukelbach J, Parker LA, Pastor-Valero M, et al. Grade 2 disabilities in leprosy patients from Brazil: Need for follow-up after completion of multidrug therapy. PLoS Negl Trop Dis. 2018;12(7):e0006645.

  13. World Health Organization. Weekly Epidemiological Record. Global leprosy (Hansen disease) update, 2019: time to step-up prevention initiatives. 2020;95(36):417-440.

  14. Brasil. Minstério da Saúde. Boletim Epidemiológico Especial - Doença pelo Coronavírus COVID-19. Semana Epidemiológica 40 (27/09/2020 a 03/10/2020). 2020.

  15. Souza WM, Buss LF, Candido DDS, Carrera JP, Li S, Zarebski AE, et al. Epidemiological and clinical characteristics of the COVID-19 epidemic in Brazil. Nat Hum Behav. 2020;4(8):856-65.

  16. Zamudio KR, Kellner A, Serejo C, de Britto MR, Castro CB, Buckup PA, et al. Lack of science support fails Brazil. Science. 2018;361(6409):1322-3.

  17. Barbuy B. Crisis in Brazil. Science. 2018;361(6409):1293.

  18. Ortega F, Orsini M. Governing COVID-19 without government in Brazil: Ignorance, neoliberal authoritarianism, and the collapse of public health leadership. Glob Public Health. 2020;15(9):1257-77.

  19. Stefano D, Mendonça ML. Direitos Humanos no Brasil 2019: Relatório da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. São Paulo: Outras Expressões; 2019. p. 285.

  20. Funcia FR. Underfunding and federal budget of SUS: preliminary references for additional resource allocation. Cien Saude Colet. 2019;24(12):4405-15.

  21. World Health Organization. Global Leprosy Strategy 2016–2020. Accelerating towards a leprosy-free world. Monitoring and Evaluation Guide. New Delhi: World Health Organization, Regional Office for South-East Asia; 2017.